Com Síria, Mariana e Paris aprendemos a calcular o sofrimento

Com Síria, Mariana e Paris aprendemos a calcular o sofrimento

Fotografía: Meiry Peruch
Artigo Análise dos ataques em Paris e resposta militar desencadeada na Síria

*Amauri Chamorro

Não há justificativa para a violência. Seja ela contra um ser humano ou contra o meio ambiente. O equilíbrio que permita a nossa existência neste pontinho no universo deveria ser uma questão “sine qua non” para sobrevivência da nossa medíocre espécie.

As grandes conquistas tecnológicas e culturais como uma miragem de avanço da nossa raça, desaparecem ao momento em que amarramos os afrodescendentes nos postes e o matamos na base da pedrada. Os brados por ir à Lua, descobrir uma vacina, ou desenvolver o biocombustível soa hipócrita quando olhamos Mariana e o ex-Rio Doce. A vontade por dinheiro permitiu que em questão de horas desaparecesse um rio, e junto com ele a vida de 15 pessoas.

Como era de se esperar a presidente Dilma demorou uma semana para se posicionar a respeito. Eu penso se ela demorou na escolha do figurino para visitar o local, na formulação da declaração pública, ou se ela esperava que caísse uma chuvona e ajudasse a lavar o rastro do desastre. Minas Gerais é a sua terra natal, uai. Para que ter pressa?

Na disputa informativa sobre a tragédia de Mariana, parte da esquerda comunicadora colocou a culpa na privatização (???) e na Vale. Imediatamente a empresa iniciou um trabalho comunicacional envolvendo algum plano estratégico integral com relações públicas, planos de responsabilidade social, publicidade, assessoria de imprensa, media training, redes sociais e alguns muitos milhões de dólares. Novamente a realidade sobre a verdade do acontecido será escondida.

O mesmo aconteceu com os atentados de Paris. A catarse ocidental gerada pela cobertura jornalística, e suas análises fraccionadas, é muito perigosa. As empresas de comunicação ajudam a canalizar as compreensões dos cidadãos médios franceses, criando assim uma viabilidade emocional e sem culpa para uma resposta militar na Síria. Sem o véu midiático, o Estado Islâmico seria identificado como uma criação da OTAN. Traduzindo: o dinheiro do contribuinte francês ajudou a financiar o atentado de ontem. Simples assim. Hilary Clinton já assumiu publicamente, o que todos sabem. Assim como em 2014 o secretario de defesa dos EUA já havia confirmado a criação e financiamento da criação do EI.

Sempre os EUA fazem a mesma coisa. Se querem algo que está além-mar, desestabilizam algum governo, pagam rebeldes, derrubam o presidente numa guerra civil e tomam o que for. Um exemplo disso é o Panamá, que era uma província da Colômbia. Quando os EUA decidiram comprar dos franceses a obra do canal de Panamá em 1900, pagaram os “rebeldes” panamenhos que queriam sua “independência” da Colômbia. Motivo: a Colômbia não autorizava que a área do canal fosse território exclusivo dos EUA. E assim foi. Nasceu o Panamá e a “área de exclusão” que dividia o pais em dois passou a ser controlada com as leis do estado de Oklahoma, apesar de estarem na América Central.

Inglaterra, Portugal, Espanha, Bélgica, França, Holanda já tinham feito algo parecido, durante a partilha da África e a Ásia alguns séculos antes. Inventaram estados-nação para poder roubar mais facilmente suas riquezas, para depois produzir o maior holocausto da história da humanidade: a escravidão. A Europa sistematizou a captura, venda, transporte e comercialização de seres humanos. E como não eram suecos, e sim africanos de todas as etnias, a escravidão virou apenas parte do folclore da nossa américa e caribe. Como nossa educação é incapaz de nos preparar para enfrentar a realidade, nos comovemos a partir do que as noticias orientam.

O maior exemplo disso é ver como após 134 assassinatos em Paris a sociedade ainda não se manifestou em contra os EUA, o governo Hollande e a Otan. Daí me pergunto: Como pode ser que os votantes e contribuintes franceses não façam nada a respeito da origem do atentado em seu país? Eu acreditava que a qualidade da formação educacional, e a tradição política e cultural deles não permitissem este tipo de simulacros. Mas, sim, o povo francês se auto-engana. Assim como nós.

Desde que a Otan, França incluída, decidiram derrubar o presidente Bashar Al Assad da Síria, sem sujar diretamente as mãos, morreram 240 mil pessoas, entre eles 12 mil crianças. Veja bem o que estou afirmando: a França, a Otan e os EUA financiaram uma guerra civil que matou 240 mil pessoas em 4 anos. E nessa estratégia estava a criação do Estado Islâmico. Não me parece lógico que mil dúzias de crianças mortas a partir de uma guerra financiada pela França pudesse passar desapercebida. E na verdade passou desapercebida ao mundo, inclusive ao Brasil. Não houve twibonn com bandeira da Síria, não houve #SomosTodosCriançasSirias, não houve espanto.

Não existe um “índice de comoção”, sem importar se a causa fora é um atentado, uma guerra, desastre natural causado por mineradora ou a violência urbana. Na sexta-feira dia 13, na França foram assassinadas 134 pessoas, para um país que tem 66 milhões de habitantes. Na Síria morrem diariamente em média 165 pessoas, durante os últimos quatro anos. Síria tem 22 milhões de habitantes. Será que isso é um parâmetro? Não. Claro que não. Cada um decide qual calo o aperta, ou o motivo que o indigna.

Porém há uma indispensável necessidade de disputar a narrativa informativa do que acontece no mundo. Atualmente as empresas de comunicação continuam fortalecendo a ideia de que o islamismo é a origem de todos os males. Isso não é apenas uma falácia: é um crime. Para a indústria formadora de consciências no Brasil, a culpa dos males do país surge do PT. No mundo, os atentados na França são culpa do islam. Quando os meios receberem o acordado $, a sociedade começará a achar que a culpa do desastre no rio Doce, é da lama.

 

 

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