Batalha da Representação: A disputa pela identidade Latino-Americana

Fotografia: Cojedes
Artigo – A direita conservadora e sua tentativa de conquistar a região

*Amauri Chamorro

Há uma disputa pelo significante da América Latina. Na tentativa da manutenção ou reconquista do poder por parte da direita conservadora, existe uma intencionalidade de impor uma identidade em nosso continente. Não é apenas a disputa pelo modelo econômico, mas pelos signos que devem predominar em nossa identidade como latino-americanos.

Pela primeira vez na história a esquerda consegue chegar e se manter na presidência da maioria dos países sul-americanos. É como se o gado tomasse conta do curral. Não é uma simples ilusão orweliana. O progressismo começou a se estabelecer em diversos países como Brasil, Chile, Equador, Uruguai e Bolívia, a partir da vitória de Hugo Chávez na Venezuela, em 98. Com essas vitórias, agora fazem parte dessa narrativa os negros, índios, mestiços e pobres, que durante séculos eram invisíveis nas esferas dos poderes republicanos, e só existiam como um componente cultural para ilustrar a miséria característica da nossa região.

A direita latino-americana é herdeira de uma visão de mundo nascida a partir da dependência legal e econômica da metrópole europeia e que esteve viva durante os séculos XVIII e XIX. Depois, com as independências e o novo modelo de desenvolvimento vindo da norte da América, onde a elite ficava com os impostos que antes eram enviados à coroa, e o desenho de Constituições para manter o poder com quem já o detinha de fato. A partir do século XX, os poderosos inventaram uma promessa de que todos poderiam chegar ao poder, mesmo que para isso fosse necessário usar o pescoço dos miseráveis como degrau. Parecia justo, inspirador, praticamente a divindade do libre arbítrio. É daí a gênese da nossa elite de apresentadoras brancas que apoiam a justiça com as próprias mãos contra os negros, do deputado que pede a volta da ditadura, da tortura de travestis em delegacias, e dos disparos de fuzil na cabeça de crianças pobres.

O discurso da esquerda progressista que combate essa visão do mundo é construído a partir da luta das classes compostas pela população afrodescendente que carrega o genocídio da escravidão, da massacre física e cultural dos colonos aos indígenas, dos pobres das áreas rurais e urbanas, e a sua luta diária por um prato de comida. Todos são parte das massas quem conformavam as bases dos movimentos progressistas que conseguiram chegar às presidências na América Latina. Gerações de meninas e meninos mestiços que sobreviveram à fome, e que conseguiram fugir ao destino de lustrar os sapatos, agora estão sentados num gabinete e tomam as decisões usando as melhores vestes, como as dos patrões de outros tempos.

As políticas econômicas e sociais dos governos progressistas criaram uma enorme classe média, o que também beneficiou sensivelmente aos ricos. Para a elite, que sempre esteve no poder, a melhora da capacidade aquisitiva desse “ex pobre” representa algo positivo, afinal, eles consomem mais, gerando mais riquezas. Ou seja, como ainda estamos no capitalismo, o rico fica cada vez mais rico. Só que essa ascensão social e econômica, onde as grandes massas de trabalhadores compram casas, carros, eletrodomésticos, bebem mais refrigerante, e têm acesso à educação, permitiu que os que carregam o DNA de antepassados escravos imponham a sua visão de mundo. Para a direita, elite, branca, isso é algo intolerável.

Essa nova classe média começou a criar a sua própria narrativa, com uma identidade carregada de signos que violentaram os sentidos dos ricos. Há uma clara ameaça à visão de mundo elitista. A percepção dos ricos sobre a realidade começou a ser invadida pelos signos que representam aquelas pessoas que sempre foram invisíveis, criando assim um novo campo de batalha, onde a esquerda progressista começou a perder.

Essa nova classe média, resultante das políticas de inclusão econômicas e sociais implementadas pelos governos progressistas na América Latina, construiu a sua autoafirmação e realização pessoal a partir de aspirações individualistas. A inclusão no mercado de consumo permitiu uma maior identificação dessa nova classe média com a direita, do que com o contexto histórico das lutas da esquerda. Isso está causando um enorme distanciamento entre os governos progressistas de esquerda e a nova classe média.

O discurso progressista foi construído para tocar o coração dos pobres, que são cada vez menos, e num momento eleitoral, as coisas se complicam para a esquerda latino-americana.

A direita entendeu essa mudança e se fortalece atacando o discurso desatualizado da esquerda, sem bater muito nas reais vitórias progressistas que fizeram a classe média crescer. Ao colocar embaixo do tapete imaginário as conquistas alcançadas pela esquerda, a nova classe média latino-americana perde a referência simbólica que a identificaria ao progressismo. Isso obriga a que constantemente os governos de esquerda invistam no processo de relembrar que cumpriram com as promessas de campanha, mesmo que isso não seja mais do interesse da maioria da população. A assimetria do que se comunica em relação ao que a população percebe é muito grande. E é nessa armadilha que a esquerda pisou. Os governos progressistas não inspiram mais às grandes massas, e a direita sabendo disso, conseguiu criar um clima de instabilidade em quase todo o continente.

Nesse contexto, a comunicação governamental sempre será falha e insuficiente para manter a governabilidade. Mesmo em países como Equador e Venezuela, onde os governos dominam com maestria esta ferramenta política, as estratégias da direita visam o desgaste na relação do governo com a população utilizando a decomposição simbólica do discurso da esquerda. Não se pode negar as conquistas como o acesso à educação infantil, as centenas de milhares de bolsas para universidades, as obras de infraestrutura, o crescimento económico de toda a região, os melhores salários da história e a sensível diminuição da pobreza. O discurso progressista está ancorado nesses ícones, esperando que a nova classe média lembre disso. O problema é que gratidão não sustenta governo. A cada eleição é indispensável reconquistar o único mecanismo de continuar o progressismo, que é o voto.

A direita compreendeu a profunda alteração demográfica na decodificação das mensagens da esquerda. O ímpeto revolucionário de fazer mudanças estruturais foi decantando numa realidade de governar, onde se enfrentam os erros, a corrupção, e também a primorosa capacidade capitalista de inventar novas interpretações aos governos progressistas, mesmo que elas sejam mentirosas. Assim, pouco a pouco, acontece o desgaste na narrativa da esquerda.

O signo original progressista foi possível e alcançado pela nova classe média, mas j o original já não é mais o desejado. É preciso se reinventar, para inspirar essa nova classe média, e não vejo nenhum movimento por parte da esquerda para dar conta deste imenso desafio.

Ilustração: Vitor Teixeira (https://www.facebook.com/vitortegom)